sábado, 19 de janeiro de 2008

Aquele dia em que fui abduzida

pode falar?

Calma, isso é uma entrevista. Eu faço as perguntas, você responde.

Tudo bem.

A senhora diz ter sido abduzida por extraterrestres.

Exato.

– Conte, então, essa sua experiência.

Eu estava tranqüila, descansando em meu apartamento, quando me liga um antigo namorado, daqueles que você conhece nas festinhas dos amigos (ai, como é bom relembrar os tempos de mocinha recatada). Ele propôs uma viagem sem rumo; uma proposta bem indecorosa pra mim, uma quarentona, solteira, que vive isolada em seu apartamento quarto e sala. Seria bom mudar a rotina um dia, não é verdade? Eu, de mochilinha nas costas, parecendo uma menina colegial indo pra sua primeira aventura com o namoradinho novo. Era assim que eu me sentia. Ele apareceu de camisa floral, aberta, mostrando seu belo peitoral cabeludo, gel no cabelo, formando um topete invejável, e, ainda, uma bermuda de surfista garotão. Tava um gato! Fiquei tão maravilhada que nem notei seu Uno Mile de lateral amassada e maçaneta quebrada. Imagine, a porta ficava fechada com um arame ridículo preso a ela.

– Vamos direto ao assunto?

Tudo bem. Então, pegamos a Estrada do Côco, viajando totalmente sem imaginar onde iríamos parar, até a gente ver uma placa escrito “Massarandupió”. “Esse não é aquele lugar onde tem praia de nudismo?”, ele me perguntou. Respondi que sim, era ali mesmo. Tremi. Pensei que ele queria ir ; imagina, eu morreria de vergonha. Mas ele disse assim: “Isso me deu uma boa idéia. Vamos procurar uma praia deserta, pra praticarmos nudismo, nós dois”. eu tremi de verdade. Que descarado! Mas, no fundo, eu tinha adorado a idéia. Dirigimos mais alguns quilômetros, até ele virar, sem avisar, numa estradinha de terra, sem placa indicando nada. Mais adiante, havia uma cerca de propriedade particular meio caída. Ele, com tudo, passou por cima. Chegamos, enfim, a uma praia. Totalmente deserta, como ele queria. Tirou da mala um monte de trambolho e disse: “Vamos montar uma barraca”. Ficamos duas horas, no meio do nada, montando a maldita barraca, comprada em qualquer buraco , sem nem sequer um manual de instruções decente. Bem, passando esse estresse, fizemos um acordo de passar esse dia e o próximo de forma naturalista, ou seja, sem roupa alguma. Fiquei tão animada com a idéia que minha timidez sumiu, e, assim, fui tomar um banho de mar delicioso, totalmente pelada. Esqueci minhas celulites, meus peitos meio caídos, pequenas banhas pulando de todos os lados. Tava me sentindo uma coroa gostosona!

– E os alienígenas, senhora, onde estavam?

Isso aconteceu pela noite, quando íamos dormir.

Claro, coisas sobrenaturais acontecem apenas à noite.

Isso eu não sei, mas comigo foi na escuridão total, às duas da manhã. Estávamos dormindo, quando ouvi um barulho estranho fora da barraca, parecendo algum tipo de sirene. Meu parceiro nem se mexeu, ficou ali roncando feito um animal. Tava com medo, mas resolvi sair pra verificar. Não achei nada pra me cobrir, então saí como estava, toda exposta.

Quer dizer, então, que a senhora foi abduzida pelada?

Exatamente. Saí da barraca, mas não conseguia enxergar nada; não havia nenhuma luz, em lugar algum. Comecei, então, a gritar, perguntando se tinha alguém por perto. Nenhuma resposta. Tentei de novo, mas continuei ouvindo apenas o sopro do vento. Fui, devagar, voltando pra barraca, morrendo de medo, até perceber que não havia ninguém dentro e, muito menos, alguma coisa. Tudo sumiu. Meu ex-namorado, minhas roupas, mochila, carteira, celular, óculos; nada sobrou. Aliás, sobraram eu e a barraca, apenas. Foi quando, vinda do céu, uma forte claridade me fez fechar os olhos. Depois, apaguei completamente.

Então, tinha um disco voador bem em cima de você?

– Provavelmente, né? Se não, como teriam me sugado pra cima?

– Continue.

Quando acordei, ainda zonza, percebi estar num local estranho, muito metalizado e cheio de luzes piscantes. Eu tava no chão, imobilizada apesar de nenhuma corda a me amarrar e, ainda, com uma dor de cabeça terrível. Fiquei olhando em volta, até enxergar alguém (ou algo). Assim, eu vi um alienígena. Apesar dos três olhos e pele verde, lembrava um humano. E, ainda, parecia estar pelado, que eu via, no meio do corpo, algo parecido com um pênis. Foi que me assustei ainda mais, vendo a criatura se aproximar e se encostar em mim, como se fosse um homem atrás de sexo.

Quer dizer que o alienígena abusou sexualmente de você?

Isso! Eu fui estuprada por uma criatura verde e gosmenta!

– E o que aconteceu depois?

Ele, ou aquilo, me colocou num aparelho enorme, parecendo um elevador gigante em formato de cilindro. Depois, jogou em mim um líquido estranho, parecendo óleo de cozinha, mas mais viscoso. Fechou todo o aparelho e sumiu. Passados alguns minutos, tudo começou a sacudir, uma luz forte apareceu, fazendo aumentar minha dor de cabeça e tontura. Desmaiei e não vi mais nada. pela manhã, quando acordei, estava de volta à mesma praia de antes. Entrei em desespero e saí feito uma louca, procurando algum lugar seguro, com vida humana por perto.

– Foi, então, por isso que te viram correndo pelada e gritando num povoado ali perto?

Por isso mesmo.

Mas, o que justifica o seu namorado morto encontrado na praia?

– Foram os alienígenas! Eles o mataram!

Última pergunta: como a senhora se sente presa, indiciada por homicídio?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Alguém, por favor, pode chamar o Capitão Nascimento?

Eu estava amarrada, amordaçada e, ainda, presa na mala de meu próprio carro. É, inteiramente no escuro e refém dentro de meu Audi A4. Isso! Meu carrinho importado, caro, comprado com o suor do santo trabalho de meu marido deputado, vai ser roubado por esses ignorantes, sujos e mal-educados. Além disso, fui obrigadadesumanamente – a tirar todas minhas jóias de ouro, meus lindos sapados vermelhos Prada (última coleção!) e minha bolsa Louis Vuitton, e, até, sujaram meu precioso vestido Roberto Cavalli. Seria tudo isso justo? Uma mulher de família, da “high society”, educada nos melhores e mais caros colégios de Brasília, obrigada a se submeter a marginais quaisquer, depois de um cansativo dia de compras no shopping.

– Ô, madame, se fica quietinha , porque a gente vamo pará daqui a pouco.

Onde se viu, falar tão errado assim? O problema desse país é a educação! Umas boas porradas educava muitos desses bandidos. Depois dizem que a culpa é do rico, da desigualdade social... Mas que nada! Esses vagabundos não querem saber de trabalhar, se amontoam naquelas imundícies de favela e, ainda por cima, acham que tem direito a tudo.

– Fazemo o que com a mulé?

Mata.

– Tá doido das idéa? E o deputadozinho de merda marido dela? Vamo aproveitar.

– Tem grana?

– Tá é cheio. num assiste o Boni não, do jornal? Os político são tudo bandido, que nem nóis. É, mas é bandido grã-fino, cheio dos terno. E, sabe como chamam eles? A elite brasileira. Tudo barão que tem nojo de povo. Mas eu acho que é medo, de ficar pobre que nem nóis. Por isso foge, faz muro alto, compra esses carro que tem vidro que não fura com bala.

Então, é essa elite que comanda o país?

– É.

– Tamo fudido.

sábado, 12 de janeiro de 2008

E Sócrates?

Papai, o que é sexo?

Filhinha, você está muito nova pra conversar sobre essas coisas. Quando você for casar, te explico.

Papai, o que é maiêutica?

...

Vamos voltar ao assunto do sexo?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Entre línguas

Sentia muito prazer. Pele quente, várias línguas a lambê-la. Deliciava-se, inteiramente, com diversos corpos em redor, acariciando-a, deixando-a feliz; muito feliz.

Aqui, Tom.

Isso...

Eric, venha .

Fred, ai, que gostoso.

Seria imoral para uma velha? Sim, uma velha e seus doze gatos.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Mais uma história de plano perfeito

O PLANO

Era em um porão de uma antiga casa de interior onde se planejava, meticulosamente, todo o plano. Segundo seus elaboradores, claro, seria perfeito. Dentre eles, no entanto, destacava-se apenas um; uma espécie, provavelmente, de líder nato, responsável pela disciplina e maturidade, as quais, segundo ele, eram indispensáveis.

– João, esse desenho? Você vai seguir por esse caminho pintado de vermelho, passando pelo poste, até chegar na árvore maior. Sim, essa mesma que eu marquei um xis.

Ei, Marcos, presta atenção, é sua vez agora.

Não! Você não pode ir junto com João. Escute bem: você vai pelo outro lado, até dar a volta inteira na casa. Mas, não se esqueça, sempre ande no meio do mato, pra ninguém te ver.

– Carlos, acompanhe, não tão perto, João, para, assim que ver Marcos, chamar os dois para se encontrarem. Vocês três, juntos, vão até o muro dos fundos, bem aqui, onde marquei de caneta preta. Fiquem esperando.

Ana, no dia te explico o que fazer.


A AÇÃO

Ana tremia. Estava nervosa por participar de sua primeira ação tática e ainda ser a peça decisiva para o sucesso da missão.

Ana, fique calma e escute bem o que vou falar. Assim que eu der o sinal, você vai, bem devagar, em direção à casa. Espera um pouco e toca a campainha. Quando o dono da loja abrir a porta, peça, com calma, pra usar o banheiro. Ele vai te indicar um local aos fundos e, talvez, te acompanhe até . Espere dez segundos, saia e entre na porta ao lado. Ali é o depósito.

Isso... você precisará, apenas, abrir a janela para João, Marcos e Carlos. Depois, saia do lugar. Pela porta da frente, claro.

Começava a ação.

Simultaneamente, João e Marcos iniciavam seus trajetos, preocupando-se em seguir tudo o que foi planejado. Carlos, depois, passou a acompanhá-los, até se encontrarem junto à parede da casa. Esperaram apenas dois minutos, quando Ana abriu a janela.

Depois de meia hora, estariam de volta ao porão, deliciando-se com inúmeras caixas de doces e bombons, como crianças felizes. Aliás, eles eram crianças.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Vai-e-vem

Amor, o que Renato Russo quis dizer comsexo verbal”?

Querida, deixe-me concentrar.

– Seria algo relacionado com conversa prolixa?

...

Talvez um desgaste de conteúdo por um vai-e-vem de palavras?

Ou, ainda, o individualismo, representado, metaforicamente, com o ato sexual?

– Sendo, portanto, uma anulação da retórica por part...

Gozaram juntos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ondulações

Estava nua. Integralmente nua. Pele branca; pálida, porém bela. Mostrava-se sensual, valorizando seu corpo miúdo, de seios rijos e pequenos; pêlos pretos e macios entre as pernas; rosto delicado e angelical. Destacava-se, no entanto, não a nudez em si, mas o nu de uma grávida. De 5 meses talvez, de barriga proeminente. Seus olhos verdes revelavam um grande olhar de tristeza ou, melhor, de mistério. Linda mulher. Pena estar morta.

Eu era novo naquele tipo de trabalho. Em meu currículo, apesar disso, constava diversos nomes eliminados com sucesso. Matara diversas figuras, passando por padres, prostitutas e banqueiros. Seria difícil imaginar, no entanto, ser pago para assassinar tão bela mulher – grávida, deve-se ressaltar. Costumava matar sem piedade, remorso ou dor; mas, dessa vez, senti-me atordoado. Por isso, deixei de lado a pistola. Matei-a por estrangulamento. Afinal, não seria justo estragar tal obra de arte divina. Depois, despi-a completamente.

Lembrei-me de um outro caso. Era madrugada de sábado quando invadi uma casa no Rio Vermelho. Choquei-me pela facilidade em pular o muro, arrombar a portaquase que silenciosamente – e invadir um dos quartos, onde estava um casal. Um homem extremamente gordo, de bigode e aparentando calvície transava loucamente com uma mulher negra, de seios fartos, esmagados pela gordura de seu parceiro. Ela vestia, apenas, um avental de empregada doméstica, enquanto ele se mostrava assustadoramente nu. Matei-o e assumi seu lugar no sexo.

Não. Aquela não fora a situação mais inusitada. Esta é.

Sentei-me na cama, ao lado da mulher nua. Admirava-a inteiramente, dos pés delicados aos cabelos pretos ondulados. Não sentia desejo sexual, mas, de fato, uma forte compaixão. Sentimento estranho para um assassino, acostumado com a dor e a morte. Estaria sendo imaturo? Talvez.

Passei a acariciá-la. Senti seus pés, pernas muito lisas, coxas macias. Passei por seu sexo, muito úmido para uma moça morta. Percebi as ondas do ventre de grávida, os seios e o pescoço fino. Parei no rosto. Este era o mais belo. Beijei-a, ternamente.

Estava apaixonado.